ARNALDO ANTUNES:



FABRÍCIO CARPINEJAR:
junto às cinzas
de um templo vago
o relógio espiritual dos séculos.
Estranha esta necessidade de ser carne e música.
Açúcar é assado:
o suor do camponês pulverizado,
sacos de cristal na prateleira,
valendo ouro no mercado,
virando merda no organismo,
bela merda,
doce merda,
...merda...
Açúcar é assombro:
à sombra do Hades,
as águas do Ganges;
panacéia do avesso
e dor das paixões
e cor das paixões
se esparramando, líquida,
na esclerose de minhas veias,
minhas veias velhas.
Veneno e garapa,
a mó, o mel, o mal,
a morte feito gosto
invade meu sonho,
me habita o pesadelo
num aviso de sol morno:
o passo lerdo,
o pinto casto,
o cuco morto.
E dá sinais de olho posto:
a vida breve,
a arte curta,
o gole brusco,
a cinza fria,
um dó de peito
e o pó sem fundo,
ao qual haveremos
de tornar
- todos.
O bonde-emoção
o atropela e mata,
mas, vivo, o desejo sem trilho
de homens comuns,
que o amam,
mantém o castelo de pé,
o templo da expiação,
o tempo na contramão,
profanos desvarios da paixão.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
FABRÍCIO CARPINEJAR:
Primeira colina - poema 8
Reconheci a antigüidade do rosto
pela fumaça apressada do prado
- ela encorpava,
ardilosa,
uma cobra que endurece
o couro
na estocada da faca.
Oitava colina - poema 1
As laranjas prematuras,
lâmpadas queimadas,
boiavam no esgoto
do pátio,
com o suco parado,
isoladas da eletricidade.
Nona colina - poema 3
A vida amou a morte
mais do que havia
para morrer.
Reconheci a antigüidade do rosto
pela fumaça apressada do prado
- ela encorpava,
ardilosa,
uma cobra que endurece
o couro
na estocada da faca.
Oitava colina - poema 1
As laranjas prematuras,
lâmpadas queimadas,
boiavam no esgoto
do pátio,
com o suco parado,
isoladas da eletricidade.
Nona colina - poema 3
A vida amou a morte
mais do que havia
para morrer.
JOSÉ NÊUMANE PINTO:
Picasso andaluz
Guernica
África
Hiroxima
meu amor.
Meu coração
sepultado
pela bomba H
pela bomba azul
Guernica
África
Hiroxima
meu amor.
Meu coração
sepultado
pela bomba H
pela bomba azul
junto às cinzas
de um templo vago
o relógio espiritual dos séculos.
Estranha esta necessidade de ser carne e música.
Ode ao pó
Açúcar é assim:
brilho vermelho na melancia,
mancha verde na uva-itália
e na maçã verde,
mas todo branco quando só
e branco inteiro enquanto pó
(força de fortes
droga de débeis).
Gelado e molenga
no sorvete de açaí;
a cara-metade do caramelo,
embebido em compressas,
tostado em fogo lento.
Há açúcar na polpa
e açúcar na papa.
Há açúcar do engenho,
de forno e fornalha.
brilho vermelho na melancia,
mancha verde na uva-itália
e na maçã verde,
mas todo branco quando só
e branco inteiro enquanto pó
(força de fortes
droga de débeis).
Gelado e molenga
no sorvete de açaí;
a cara-metade do caramelo,
embebido em compressas,
tostado em fogo lento.
Há açúcar na polpa
e açúcar na papa.
Há açúcar do engenho,
de forno e fornalha.
Açúcar é assado:
o suor do camponês pulverizado,
sacos de cristal na prateleira,
valendo ouro no mercado,
virando merda no organismo,
bela merda,
doce merda,
...merda...
Açúcar é assombro:
à sombra do Hades,
as águas do Ganges;
panacéia do avesso
e dor das paixões
e cor das paixões
se esparramando, líquida,
na esclerose de minhas veias,
minhas veias velhas.
Veneno e garapa,
a mó, o mel, o mal,
a morte feito gosto
invade meu sonho,
me habita o pesadelo
num aviso de sol morno:
o passo lerdo,
o pinto casto,
o cuco morto.
E dá sinais de olho posto:
a vida breve,
a arte curta,
o gole brusco,
a cinza fria,
um dó de peito
e o pó sem fundo,
ao qual haveremos
de tornar
- todos.
Quanto custa?
Quanto custa
a arquitetura vegetal
semeada no sonho?
Quanto se paga
pelo devaneio?
Que esmola pôr à mão
do velho corvo,
que abre as asas,
quando o avião
cruza o vão
entre dois espetos
que ele fincou?
O velho corvo grita
contra o céu
e estende a mão
à insone ilusão,
que lhe cabe.
Quanto custa
a arquitetura vegetal
semeada no sonho?
Quanto se paga
pelo devaneio?
Que esmola pôr à mão
do velho corvo,
que abre as asas,
quando o avião
cruza o vão
entre dois espetos
que ele fincou?
O velho corvo grita
contra o céu
e estende a mão
à insone ilusão,
que lhe cabe.
Que esmola lhe dar?
Os calos na pele das mãos
de seus obreiros,
os cérebros endoidecidos
de seus mestres de obra
ou as retinas escancaradas
do mundo a seus pés?
Os calos na pele das mãos
de seus obreiros,
os cérebros endoidecidos
de seus mestres de obra
ou as retinas escancaradas
do mundo a seus pés?
O bonde-emoção
o atropela e mata,
mas, vivo, o desejo sem trilho
de homens comuns,
que o amam,
mantém o castelo de pé,
o templo da expiação,
o tempo na contramão,
profanos desvarios da paixão.
DANIEL PERICO GRACIANO:
elegia elétrica
É noite de quarta feira
O anátema preenche o sudário
sonhos
Que as cordas não querem ecoar
Só há nênias imaginavelmente nos violinos quebrados
Aparentemente nada mais que dedos gangrenados
Negro
Negro
Quase cego
A negra luz de ferro
Contra a lua
A nua cor do berro
Contra a rua
Na rua havia uma flor dançando no negro sangue da lua incolor
Mas que flor?
Que flor?!
Que flor? Aquela que comeu tua dor
A dor nos retratos ovais onde as meninas mortas dos olhos roíam seus medos bebiam cachaça vomitavam lembranças retirantes andanças as danças as mansas diretrizes as mancas meretrizes Mas não haviam retratos João não havia febre não havia pão havia guerra havia solidão
Só restava a luta só restava a puta só restava a disputa havia uma bailarina psicodélica uma cadavérica flor bélica sanguinoliflorida havia o luto
A luta
Que aterra
Pelo lucro
Pelo sulco
Sulfúrico
Da terra
Sulfurina
Sulfurina
Acre-doce
Agridoce
Que a urina
Agrilhoa
uma flora
matutina
Acrimônia
Rejeito o grito de cada passo morto em todo espaço absorto cada aborto
Ensimesmado berrando palavras de aversão cada aferro feto brada suplicas de encesto Ensejos sobranceiros bebendo sucos de sumos de baratas vertendo semens de aberrações inatas
recosto então nessa colérica cegueira
que
Perfilha a consternação que espinhosa flor que se desfolha em telepáticos diamantes diáfanos amantes análogos isomorfos homeomorfos homens ou mortos cantando
Insertos hinos polimorficos paralelamente tênues mofos mofados moleques molhados
Cruentos colados cruzados com bestas em festas maleitas em certas colheitas não há plantação que caibam num verso que façam canções que façam orações sem microtonalidades dodecafonismos que voem pelas cidades que diminuam idades que maldigam maldades
Que curem enfermidades que destilem mediocridades medíocres ferocidades de feras de potestades orgulhos vaidades sem cortes sem sortes saudades de mortes de montes de frontes lavados com éter etéreo eteno eterno externo extático terno fatídico fadário finos finados meninos calados caolhos capados surrados surreais e suicidas três vezes ao dia
Assim assaltado por insopitável torpor
Minha inconsciência lipotímia divisa dúbias teratologias nebulosas psicografias lisérgicas
Violentadas por sinergias fonéticas de almas despregadas que desagrada que desmamadas que desdentadas e desdenhadas vomita todo sumo dos putrefatos seios decompostos da mulher amada desnuda armada com laroz atroz que beija a boca atestada em larvas abrigo de todo pus todo lodo defecado animado a tênias que fazem cantigas que fazem poemas que trazem amigas na noite feros que trazem algoz que trazem a nós suicidas em cores em coros bramidas unidas uníssonas que bradam
Me acalmo esse é só um poema de quarta à noite
É noite
É noite
Uma estrela
Se esvai em
Madeira líquida
Numa breve
Orgia cósmica
É noite
Uma quimera
Se trai em
Maneira nítida
Numa leve
Sinestesia mórbida
Nessa mesma noite de tédio
Ao longe saltam as eras pelas janelas de mercúrio que purificam crisantos com suor e com vestidos vermelhos com pétalas que partem e se dissolvem em lagrimas acéticas que omitem aos olhos o pecado com almas siamesas nos corredores tingidas com seus palores
Que recitam suas lamúrias
la luna asturiana lejos em sangre
y la noche en sus canciones en cuerdas
de la anomalía
el viento sopla la emoción latina
en contorcer los cuerpos empieza
a bailar los epilépticos
hasta comienza en la incautación
de guitarras de fiebre
el poeta de las cuerdas
hace para repetir el balsa triste
y la luna derrama una lagrima
en forma de alaúde
los ojos seguirá siendo cerrada
e nessa mesma noite morna no centro da terra em arvores de concreto azul
encontra-se a cama imunda do sangue sagrado do rato rei morto em batalha contra o próprio coração mas era rato era pus nem coração nem alma e nem o grande minotauro negro que corria em grego pelas diminutas artérias da prostituta efêmera de Almeida Junior
mas era deus de algum povo extinto das vias de fuga psíquicas do menino poeta era o rubro sol que levantava urrava e explodia a alguns ocasionando euforia era o ponteiro andando entre dois pregos o spleen maldito descendo amargo a utopia que vivia no centro da piamater era a fantasia em conflito com os sois da meia noite
o poema escorre
seus olhos lacrimejam
olhos de água em febre
de fogo de pedra
alucinações
gelo seco em flor
caricias espasmódicas
espasmos de sonhos
nada mais
seus olhos agora inertes
são olhos em coma ao útero
fantasias mascaras de sangue e cal
olhos de amnésia
cordões
de vinho branco
olhas
quem sois
sois
a caneta
a porta
a maçaneta
a velha pagina rasgada
sois o ponteiro que tarda nessas madrugadas que correm vã disparada
a cadeira
o jornal amarelento
sois o velho livro sobre a mesa poeirento
esperando afoito ser manuseado
sois a velha estatueta o jarro cheio de cobras
a diminuta vela que da vida as sombras
sois o rádio morto pelas notas estridentes
sois um medo absorto
um coração doente
talvez seus olhos escorram em ardência
ao passo que o poema se destorce
talvez durma talvez sonhe talvez sua inconsciência o encaminhe ate o visinho do martelo que no domingo golpeou no ritmo exato daquela bachiana do Villa Lobos talvez volte ao poema numa tétrica tentativa de concentração e passados quinze minutos a conta atrasada do gás ou da água atropele a leitura então dorme e o sonho? O sonho de tão branco
fora negro
que translúcido transpassa
três
vidraças
do coração de uma mulher
do
fantasma
fora a malevolência
e do reflexo a
indiferência
que difere
do real
dos cabelos
a serpente
dos seios
o veneno
de saturno os anéis
pra
me
desposar
em sete
devaneios
de branco fora lúcido
que transparece
três reflexos
que transitam
da
oração
de uma
mulher
da benevolência
fora o fantasma
na vidraça
realmente indiferente
do bruxo a maldição do ilusório a razão do sonho o deliria as cores dos imundos esgotos as flores
de cores diferentes
e
odores
reluzentes
Negro
Negro
Negra luz que aterra o coito
Negra cruz que encerra
O morto
Negro
Negra noite
Negro açoite acoita a
Psico-Pugna
Refletida nos glóbulos cansados onde
Seus olhos estão em guerra
Agora em lugar algum
Um mourinho agita o lençol escarlate
Em lugar algum
Um homem azul
Um homem violeta
Em lugar algum
Poetas e crianças
E setas e lanças
Em lugar algum
As lágrimas semearão
Papoulas mortas
Em lugar algum
pétalas de cores
Diferentes
Em lugar algum
Emergentes
Em lugar algum
Numa nevoa
Em forma
De serpente
Em lugar algum
Rasgam-se
Cortinas de fumaça
Em lugar algum
Nos cantos ouve-se
O silêncio
Em lugar algum
Em todos os jornais
De lugar algum
Borboletas
tabaco
destilaria
em lugar algum
Monumentos
aves
madeira
liquida
em lugar algum
tristes
restos
dos
futuros
dias
em lugar algum
E a serpente
Botou ovos nas almas
Em lugar algum
Os crânios ocultam as armas
Em lugar algum
Violinos medalhadas
Meninos muralhas
Em lugar algum
Sombras de ideias queimadas
Em lugar algum
Dois copos
De pus
Dois copos
De corpos
Dois odores
de luz duas flores de fogo-fátuO dançando pelas montanhas de falo decepado saltando pelas entranhas d’um exu desencarnado escarrado no homem de plástico que procurava sete palavras pra encontrar uma ilusão perdida que explicasse que as vozes não tinham corpos que o tempo em seus segundos lentos não machucavam os rostos no retratos quebrados sem palavras vazias sem sons sem escritas que esquecem marmitas cheias de metafísica do operário-pessoa-física que esquecem tudo que passa que entende que é o próprio erro que entende crianças aidéticas que tentam voltar ao século XX que procuram vozes para seus corpos que é Arida a semente que nasce do ventre do mal que suas asas prendem ao chão que poesia não é pão que ao invés do marginal alimentam o cão
Portanto
feche
os olhos
e veja
as nebulosas
que se
decompõem
em pó
e escorrem
pelas narinas
do tempo
que inala
toda
Via Láctea
em toda
sua postestade
pelas narina do tempo que inala toda sua relatividade irei à Paris
onde
garçons dans
les rues course
courante des yeux
et finissent pour
si se cachant dans
le cerveau...
longues jours
jours de pluvie
longues heures
de lentier
irei com todos os idiomas que não domino irei com Beatriz com Laura com Inês com Lilá Brik Salome Matilde cadáveres do papel que o verme desbotou em palor
contudo se não há metafísica na marmita do lavrador
não vai haver em minha caneta que é só tinta e dor
nos seus cabelos prolixos de guarado áureo e antracita
só pulsa decrépita mascara poética que a ilusão recita
meu cigarro com um fósforo não acenderei
quimera minha teu ultimo formidável enterro nunca assistirei porque vos alimentei
e o escarro da boca que me beija beberei junto as cinzas das passadas eras senis para brotar do cão um ovo para que os mortos apodreçam em paz e para que seus crânios sirvam vinho no bar do vadinho
beijarei sim o relâmpago assim farei um “eletrique poème” pra que vós necrófilos apostólicos romanos o possam matar
Mas nessa noite de quarta feira é minha sombra que corre pelas dissonâncias que escalam paredes em escalas de Carlos Paredes entre transas teias e redes entre tramas dramas e sedes
Dramas
tramas
Tranças
abanã
antã
abati
aiyra
an
aamo
aicó
andirá
aicó
anacã
anira
anicê
aé
acemira
Cego
Chego
Negu
Nego –
Nega – cio
EGO
ego
OGE
OGE CUARTA FÊRA DI NOITI quiascordaviolaquebrasozinhasachuvacaieasabeiapicaasbundadasbailarinadodegasnaflorestaavermeiadapinduradanaparedecheiadiburacodiamareloapagadoquasisemcorondemoraasfurmigaquicomimerdadushomiquitemvermiquitamemcomioshomiquicomigalinhaquicomicatarroquibquiteriacomiquitamemcomiohomiquicomiamuiéquicomiespermatozoidiquicomeriamtediovergonhamedoipocrisiavaidadimentiragananciapsedoitelectualidadetraiçaocancerodioguerrafriaquentisolidaliquidagasosaquicomiaidstetanohepatiticirrosihepaticaesquizofrenia catalepsiacleptomaniaverborragiagonorreiagripeespanholaduençadavacalocaiquiporfimcomeriaateaLUXURIAdaengolidoradoespermainintrruptodavialactea
Via
La
C
Tea
Escrevi canções à minha terra
e tenho guardado em mim todas as palavras do mundo
Que se reproduzem da velocidade rítmica dos meus passos
Há versos aparentemente nos olhos contaminados
nada mais que medos consumados
quiçá os delírios sejam anjos e tragam versos em bandejas de prata
e todos os deuses roubem desses versos sua imortalidade intemerata
escrevi canções à minha a minha geração
e tenho guardado em meu peito todo catarro do mundo
que se reproduz de cada beijo cada cigarro vagabundo
escrevi canções a cada irmão
cada filho da minha terra
que erra
que erra e aterra e atesta
que me leva pela mão
que em cada canto
chorará meu pranto
e pisará meu chão
escrevi canções a Volpi a Chirico a Rivera
as desventuras tétricas de cada primavera
a Trotski a cada puta cada luta cada freira
escrevo hoje cada verso a noite de quarta feira
e em cada rijo espaço mudo
aferro a ferro e fumo
a punhalada seca em cada chama
cada pele hirsuta
cada chama
cada membrana
intacta a pólen sangue húmus
cada pólo infértil
cada reles gameta
em cada gama cada meta
minha palavra engana
minha palavra é seta
minha palavra é alvo é
alva incerta
minha palavra é delírio
que do éden devora o ultimo lírio
Minha palavra ‘arur attá
Minha palavra
‘al – gehonekhá thelêkh
minha palavra
é noite de quarta feira
e sei que amanhã concluo que assim como todo homem toda noite morrerá em juventude
mas por hora penso que o envelhecimento é tudo que se renova a cada instante
portanto apenas o envelhecimento possui a juventude eterna
Mas que importa a gaia rotação se todo poema é acrônico?
Todo poema Acromaníaco acromático
Poema-animal-acrocefalo
acromático
Anti-cefalo nédio nati-
Meta-
metrorragico
Tédio todo poema agora é médio
É trágico
Inaudível
Inaudito
Inativo
Inato
Hiato
Metafônico metromaníaco metalepse
Feérico poematico
Problemático-poema-pneumático
FERREIRA GULLAR:
Uma pedra é uma pedra
uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)
uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa
ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa
enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo
que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga
e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta
e se inventa
Toada à toa
A vida, apenas se sonha
que é plena, bela ou o que for.
Por mais que nela se ponha
é o mesmo que nada por.
Pois é certo que o vivido
- na alegria ou desespero –
como o gás é consumido...
Recomeçamos de zero.
Off price
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
Nem aí...
Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema
Perplexidades
a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado
uma pedra
(diz
o filósofo, existe
em si,
não para si
como nós)
uma pedra
é uma pedra
matéria densa
sem qualquer luz
não pensa
ela é somente sua
materialidade
de cousa:
não ousa
enquanto o homem é uma
aflição
que repousa
num corpo
que ele
de certo modo
nega
pois que esse corpo morre
e se apaga
e assim
o homem tenta
livrar-se do fim
que o atormenta
e se inventa
Toada à toa
A vida, apenas se sonha
que é plena, bela ou o que for.
Por mais que nela se ponha
é o mesmo que nada por.
Pois é certo que o vivido
- na alegria ou desespero –
como o gás é consumido...
Recomeçamos de zero.
Off price
Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado
Nem aí...
Indiferente
ao suposto prestígio literário
e ao trabalho
do poeta
à difícil faina
a que se entrega para
inventar o dizível,
sobe à mesa
o gatinho
se espreguiça
e deita-se e
adormece
em cima do poema
Perplexidades
a parte mais efêmera
de mim
é esta consciência de que existo
e todo o existir consiste nisto
é estranho!
e mais estranho
ainda
me é sabê-lo
e saber
que esta consciência dura menos
que um fio de meu cabelo
e mais estranho ainda
que sabê-lo
é que
enquanto dura me é dado
o infinito universo constelado
de quatrilhões e quatrilhões de estrelas
sendo que umas poucas delas
posso vê-las
fulgindo no presente do passado
THIAGO DE MELLO:
Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony
A Carlos Heitor Cony
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
O animal da floresta
De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.
De madeira lilás (ninguém me crê)
se fez meu coração. Espécie escassa
de cedro, pela cor e porque abriga
em seu âmago a morte que o ameaça.
Madeira dói?, pergunta quem me vê
os braços verdes, os olhos cheios de asas.
Por mim responde a luz do amanhecer
que recobre de escamas esmaltadas
as águas densas que me deram raça
e cantam nas raízes do meu ser.
No crepúsculo estou da ribanceira
entre as estrelas e o chão que me abençoa
as nervuras.
Já não faz mal que doa
meu bravo coração de água e madeira.
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